sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Prostituta

Era meia noite e meia em ponto quando o telefone do quarto tocou:
- Senhor, a sua... amiga chegou. Posso deixar subir?
- Sim, por favor. É, sim, me mande também um vinho, um vinho bom, e um cardápio. 
- Sim senhor. Um vinho de qual tipo, senhor?
- Eu não sei, eu... tinto, talvez? Acho que pode ser tinto. Que seja bom, só - sua voz era embaraçosa-, não sei, não me importo com o preço.
- Ok.
Desligou o telefone e sentou-se na extremidade cama de modo a estar de frente pra porta. Suas pernas mexiam-se nervosamente enquanto ele as fitava em tom de ansiedade. Tinha longas pernas magras, numa proeminência de joelhos que marcava-lhe bem o jeans. Seu pai costumava dizer que tinha pernas de moça. 
Crescera descontroladamente na adolescência ao passo em que quase não ganhara peso, sendo assim pouco lhe sobrou para que se distribuísse entre os membros. Os braços também eram longos e magros, e as secções em que juntavam-lhes as articulações eram todas saltadas, seguidas de uma magreza que se estendia pelos ossos. 
Em fato, era difícil dizer que há muito tivesse saído da adolescência. Pouca barba se apresentava em seu rosto, de modo que a mantinha sempre feita, evitando a imagem feia que lhe dava a irregularidade de pelos em que ficava seu maxilar. Sua pele, muito branca, sofria ainda com frequentes erupções de espinhas;  grandes espinhas quase sempre inflamadas que lhe deixavam fundas cicatrizes e uma vermelhidão generalizada - coisa que se agravava todas as vezes em que tinha que se barbear. Seu rosto era também magro e anguloso, com grossas madeixas de caracóis pretos e desgrenhados que lhe cobriam as orelhas e estrategicamente os olhos. Olhos doces e amendoados, num terno tom de castanho claro, herdados da mãe.  Tinha olhos inocentes, provavelmente a parte mais bonita de sua feição, mas ainda assim preferia mantê-los sob o cabelo, a fim de que não pudessem olhar diretamente neles.
Dois toques à porta; lá estava ela. 
Levantou-se apressado e olhou-se de relance no espelho. Desabotoou um dos botões da camisa mas sentiu-se ridículo sendo tão magro e não tendo o que expor, abotoou-o então de novo e enfiou os dedos pelos caracóis tentando fazê-los parecer menos bagunçados. Correu para a porta e a abriu quando a "amiga" estava prestes a bater novamente.
Sentiu-se corar instantaneamente quando a fitou nos olhos. Ela era mais bonita do que podia se supor pelas fotos de seu anúncio. Na verdade, era muito mais bonita que qualquer mulher com quem provavelmente se encontrara em toda a sua vida - o que não era difícil, visto que foram poucas e bem peculiares-. Mas isso não era um encontro, lembrou-se quase que com tristeza.
- Posso entrar?
- Claro! - falou um pouco alto demais- Claro... por favor. - e deu passagem para que ela o fizesse. 
Passou por ele em um mar de perfume que invadiu o quarto, um perfume doce e inebriante que provavelmente ficaria em todos os lençóis aos quais se deitasse. Sentou-se na cama de pernas cruzadas enquanto ele se certificava de que a porta fosse trancada. Virou-se então para ela numa expressão de quem nunca antes tivesse se imaginado em uma situação assim. Seus olhos a varreram de cima a baixo, mas muito tímidos, quase que hesitantes. Manteve-se perto da porta.
- Qual é o seu nome? O meu é...- foi interrompida antes que pudesse terminar.
- Por favor, não. Sem nomes, eu, eu prefiro assim.
- Você é quem manda. - Levantou-se da cama e aproximou-se em passos felinos; grossas coxas firmes em meias 7/8 pretas atadas com cinta-liga sob um vestido tubinho de cor carmesim, curto o suficiente para que elas fossem vistas. Encurralou-o na porta enquanto aproximava a boca de sua orelha - Vamos ficar em pé? - sussurrou, fazendo os pelos de sua nuca levantarem-se.
- N-não, não vamos, eu só, só preciso arrumar umas coisas.
- Como queira. - voltou a sentar-se. - Vamos ter brinquedinhos então?
- Sim. NÃO, não, digo, só algumas coisas que eu quero que você use e - sentiu-se corar como nunca, imaginado-se provavelmente com grandes manchas vermelhas espalhadas pelo pescoço alvo, coisa normal de se acontecer quando o nervosismo o tomava -, espere um minuto enquanto eu as organizo, tudo bem?
- Sem problemas. Você é quem manda no tempo também, meu bem.
Preparava-se para pegar a mochila que trouxera, quando o serviço de quarto fez soar uma campainha. Recolheu desajeitadamente as coisas que pedira enquanto a empregada do hotel dava uma olhadela rápida e disfarçada por entre a porta. Repousou as taças e a garrafa sobre a mesa, ao lado do cardápio, e em tom de quase entusiasmo perguntou:
- Pedi vinho. Tinto. Você gosta?
- Gosto bastante. - um sorriso malicioso abriu-se por entre os grandes lábios dela, revelando dentes bonitos. - Me serve uma taça?
- Claro.
Serviu-a trêmulo, temendo derrubar a taça nos lençóis brancos da cama, enquanto ela ajeitava-se sobre estes. Também com a sua taça já cheia, sentou-se a uma distância que entregava seu desconforto diante da situação. Ensaiou algumas palavras e as disse:
- Você é muito bonita. Muito mesmo.
- Obrigada. Você é... gentil.
Observou-a então tomar alguns goles do vinho numa cena que mais lhe remetia a um sonho; difícil acreditar que um dia estaria em uma cama com alguém tão bela, mesmo que pagando. Observou que ela tinha sardas a salpicar-lhe o busto, pequenas sardas discretas que terminavam pouco antes dos bonitos seios. Tinha seios bons de se olhar, nem pequenos e nem muito grandes, que comprimidos contra o decote lhe faziam um longo vão por onde caía alguns fios de cabelo. Um longo cabelo castanho escuro, bem liso e escovado, quase tão cheiroso quanto ela toda. Continuava a fitar-lhe os seios quando ela o surpreendeu:
- Quer tocá-los?
Antes que pudesse engolir a vergonha e desprender-se de quaisquer palavras, teve a mão tomada, e de repente encontrava-se sendo direcionado a eles. Sem que pudesse evitar, tocou-lhe o decote, de modo que ela o fez enterrar três de seus dedos por entre o vão que até agora admirara. Ainda sem poder falar viu-se conduzido a mover os dedos até que lhe tocasse o mamilo, àquela altura rijo e contraído. Sem chances de conseguir controlar qualquer coisa que se passasse por seu corpo, sentiu-se enrijecer também, numa pressão de músculos a tensionar-lhe a virilha que lhe davam a sensação de que fosse gozar a qualquer momento. Fechou os olhos por alguns momentos enquanto se permitia já colocar a mão inteira para dentro do decote, descendo o vestido e fazendo-a ficar nua da cintura para cima. Sentiu o seio firme a ser enterrado por entre os dedos, ao passo em que deixava cair a taça da outra mão, sujando cama e lençóis e depois rolando pro chão. Abriu os olhos de repente.
- Eu, p-por favor, preciso pegar algumas coisas e; estão logo ali, já volto.
Levantou-se e pegou sua mochila, andando desconfortável com o volume entre as pernas que tão visivelmente o entregava. Voltou-se para a cama e tirou de dentro dela um outro vestido; um vestido bem mais simples e inocente, de alcinhas finas e corte simplório, florido de azul e rosa. Junto com ele uma escova de cabelo. Ela olhou-o com curiosidade, enquanto repousava sua taça no criado mudo ao lado da cama.
- Você quer que eu me troque?
- Sim.
- Certo.
Ela levantou-se, ainda de seios de fora, e pôs-se a sua frente, descendo o zíper às suas costas e terminando de despir-se. Deixou que o vestido caísse no chão, desabotoou as cintas-liga sem deixar de olhá-lo e então sentou-se novamente na cama para tirar as meias. Uma expressão de divertimento passava-lhe pelo rosto, possivelmente sabendo da pouca experiência do rapaz que a contratara. Por fim, apenas uma minúscula calcinha a vestia, e ainda assim transparente, tirando-lhe a função de cobrir qualquer coisa.
Ele, contrariando o êxtase que mantinha entre as pernas, moveu-se muito calmamente; desdobrou o vestido que trouxera e a ajudou a vestir-se com ele, arrumando-lhe os cabelos enquanto ela se ajeitava por entre o tecido. Por sorte o corte era folgado e lhe servira bem; nem de longe sensual como o vestido carmim que agora jazia no chão, mas ainda assim bonito no corpo dela, misturando a sensualidade da mulher que o preenchia com a candura das flores de sua estampa.
- Estou bonita?
- Muito.
- Que bom. Agora me diga, o que você quer fazer?
- Eu quero... eu quero te amar.
- Ótimo. Que tal tirar a sua roupa agora, então? Eu apago a luz se você tiver vergonha.
- Não, você não entendeu... eu quero te amar... bem, eu quero te dar amor.
Por um segundo ela ficou sem palavras.
- Você... acho que não entendi, me dar amor?
- Sim, eu quero que você me deixe, bem, me deixe imaginar que nos amamos, ou que eu te amo e que você me permite te amar, se você achar melhor.
- ... Isso é tudo?
- Sim.
Assentiu então e deitaram-se, ela ainda um pouco confusa e ele desajeitado e envergonhado, de modo que ela pôs-se de conchinha por entre suas pernas, puxando seu braço pra cima dos dela e segurando-lhe a mão. Sorriu ao sentir o volume a encoxá-la e ajeitou-se propositalmente com os quadris pra mais perto friccionando-os, quase descobertos, por sobre o jeans úmido do rapaz.
- Então - disse-lhe sem mais delongas-, me ame.
Ele afagou-lhe os cheirosos cabelos com a mão livre e enterrou seu rosto por entre as madeixas, beijando-lhe de leve a orelha. Puxou uma respiração demorada e pôs-se a sussurrar baixinho ao pé do ouvido:
- Você é linda. Você é tão linda que eu poderia te olhar por horas sem me cansar, poderia dormir e acordar ao seu lado todos os dias sem que me questionasse uma vez sequer a respeito do meu desejo. Você põe os anjos a te reverenciar lá de cima todas as vezes em que respira, gratos pela existência de algo tão belo para admirar. Eu gostaria que todas as pessoas na rua tivessem o seu sorriso, para que eu não tivesse que me lamentar todas as vezes em que te deixo e tenho que sair. Gostaria que os grandes poetas tivessem te conhecido e visto que musa igual não há, e que escrevessem assim as mais belas histórias baseadas na dona dos pés mais abençoados que já caminharam por este mundo. Gostaria que tivéssemos filhos e que eles saíssem à você, que te cobrissem de beijos e me ajudassem a te aquecer nos dias de frio.
Abraçou-a mais firmemente e continuou:
- E quando não estivermos mais juntos eu espero que você não se esqueça disso nem por um minuto, que se olhe no espelho e se admire também. Que sorria e que alegre a si mesma, que se veja e enxergue nos seus olhos a grandeza que tem em si. Que não deixe ninguém nunca te fazer duvidar disso e que seja feliz, até mesmo nos dias mais cinzas. - beijou-lhe a nuca e silenciou-se.
Ao final da declaração ela permanecia calada. Virou-se por um momento e encararam-se por um longo instante, buscando nos olhos um do outro uma troca de almas, um entendimento ou talvez um refúgio. Um pouco sonolenta ao efeito do vinho, permitiu-se começar a adormecer. Lágrimas escapavam-lhe ainda assim, rolando quentes pela face, enquanto sua mão apertava com firmeza a dele. 
Amanheceu sozinho. Deu conta de si quando rolou para o lado e não encontrou ninguém. No criado mudo, um bilhete:
"Levei o vestido como pagamento."
Saíra vestida com ele do hotel. Nunca mais seria a mesma.

5 comentários:

  1. mas eu me emocionei de uma forma tão sincera...
    levou o vestido e um bocado de amor...

    ResponderExcluir
  2. Não apenas o melhor texto seu: um dos melhores que li na vida. Isso é literatura.

    ResponderExcluir
  3. Nossa, eu achei a história original e tocante. A escrita é perfeita.
    Eu sinceramente fui tocado por essa historia. Obrigado

    ResponderExcluir